Os malefícios do cigarro

Os riscos, tratamentos e preocupações de
quem quer parar de fumar

* Fernando Chicoski

Os dados do Ministério da Saúde destacam que o tabagismo está associado a 90% dos casos de câncer de pulmão. Uma pessoa que fuma, tem 30 vezes mais chances de ter câncer de pulmão, do que uma pessoa que não fuma.

No Brasil, o câncer de pulmão é o que mais mata os homens brasileiros. Entre as mulheres, ele só faz menos vítimas fatais do que o tumor de mama, com uma taxa de letalidade muito alta, cerca de 85% dos pacientes morrem. O único tratamento que pode curar o câncer de pulmão é a cirurgia com retirada completa do lobo pulmonar comprometido pelo câncer, seguido de quimioterapia. E isso só é possível em tumores pequenos. Infelizmente, o câncer de pulmão não causa sintomas iniciais e geralmente é descoberto em estágios avançados em que só é possível quimioterapia e radioterapia como tratamentos paliativos.

O diagnóstico precoce desse tipo de câncer é muito difícil de fazer e só ocorrem em 15% dos casos. O câncer de pulmão, geralmente, só vai dar sintomas quando está muito avançado, causando sangramento, obstrução das vias aéreas ou metástases em outros órgãos. Já no estágio inicial ele é assintomático e, mesmo na radiografia simples de tórax, é muito difícil identificar tumores menores que 1 centímetro.

Mesmo com as novas tecnologias para a detecção do câncer, a descoberta ainda é muito difícil. Uma radiografia simples, de tórax, não consegue detectar com facilidade tumores menores que 1 centímetro, além de não detectar tumores em certas posições, como atrás do coração, por exemplo. A tomografia computadorizada de tórax é muito sensível, capaz de detectar nódulos de até 3 milímetros, entretanto, é um método caro e que ainda não demonstrou benefício em ser feita em toda a população, indiscriminadamente. Essa opção é mais indicada em pacientes com fatores de risco, como os tabagistas, por exemplo. Mas se uma pessoa que fuma, faz hoje uma tomografia normal, mas continua fumando, este exame não garante que ela não vá desenvolver o câncer na próxima semana.

Além dos riscos de câncer de pulmão, o tabagismo também pode atingir outros órgãos e partes do corpo, como boca e laringe (garganta), e os casos de cânceres desses locais estão quase, na sua totalidade, relacionados ao cigarro. Esses locais têm o diagnóstico mais rápido, desde que a pessoa tenha o hábito de consultar o médico ou dentista e, assim, são tratados em estágios mais precoces.

Na população sem acesso aos serviços de saúde preventivos, é extremamente alta a incidência de câncer de boca e laringe que, muitas vezes, resultam em tratamentos mutiladores. Outro caso é o câncer de esôfago, que também ocorre mais nos fumantes, bem como os casos de câncer de bexiga.

Já a lenda urbana de que existe uma quantidade mínima segura para o consumo de cigarros por dia, não passa, realmente, de uma lenda. O risco de doenças está relacionado à exposição acumulada, isto é, o número de cigarros consumidos diariamente e o tempo total, em anos, deste consumo. Acreditar que oito ou dez cigarros por dia é seguro, é o mesmo que pegar, por exemplo, uma estatística de que em uma cidade ocorrem 10 atropelamentos por dia, e se hoje o 10º atropelamento ocorreu às 15h, então ninguém mais precisaria olhar para os lados antes de atravessar a rua, durante o resto do dia.

Mais um motivo para parar de fumar são os dados divulgados pela Associação Médica Britânica que destaque que, em média, o fumante que morre de câncer de pulmão, poderia ter vivido mais 22 anos. A expectativa de vida de um doente vai depender do estágio do câncer ao diagnóstico. Em estágios bem iniciais, com tratamento adequado, mais de 60% dos pacientes vivem mais que cinco anos, mas isso é raridade. Na doença avançada, a expectativa mediana de vida, mesmo com tratamento, chega no máximo a 16 meses. Mas isso não quer dizer que todos morrem com 16 meses, tem casos isolados de pacientes que vivem muito mais, por isso a importância de sempre buscar o melhor tratamento.

Algumas orientações são importantes para quem quer cuidar bem da saúde. A primeira é parar de fumar. Não vai adiantar nada um check-up médico normal hoje, se a pessoa continuar fumando, pois ela corre o risco de desenvolver as doenças posteriormente. Se a pessoa está interessada em mudar de hábito, indicamos um check-up cardiológico completo (teste ergométrico, por exemplo), exame de imagem do pulmão (radiografia ou tomografia) e demais exames de acordo com a idade e outros fatores de risco, como história familiar de câncer e obesidade.

Um levantamento do Hospital das Clínicas de São Paulo revela que apenas 2% das pessoas que largam o vício conseguem fazê-lo sem tratamento. Por isso, o tratamento deve envolver, primeiro, a vontade do paciente em parar. Depois, é necessário acompanhamento médico e psicológico, abordagem de família, pois fica difícil parar de fumar se o cônjuge continua fumando, e suporte com medicamentos, para controlar a síndrome de abstinência que ocorre nos primeiros meses sem o cigarro.

Em termos de prevenção, ressalto que o câncer de pulmão não é o único risco do tabagismo. Existe o infarto do miocárdio, bronquite crônica que inutiliza milhares de pessoas por ano e problemas circulatórios que causam amputação de membros. Por isso, quem quer parar de fumar deve procurar ajuda. Existem muitos especialistas disponíveis e mesmo no serviço público de saúde existem equipes especializadas no tratamento da dependência do cigarro. Para aqueles que, mesmo assim, decidem continuar fumando, oriento que se preparem para as possíveis consequências. Tenham um bom plano de saúde e um bom plano de previdência e seguro de vida para proteger suas famílias.

 
 
* Fernando Chicoski: Oncologista Clínico. Especialista em cancerologia pela Universidade Federal do Paraná. Fez estágio no St Jude Children’s Research Hospital, Memphis (TN – EUA), em Hematologia e Oncologia Pediátrica. Atualmente é oncologista clínico da Neo Saúde – Centro de Excelência em Tratamento Oncológico, em Curitiba (PR).


Fonte: Jornal do Site



voltar